2h atrás
Strategy vende US$ 395 milhões em Bitcoin para recomprar STRC e formar reserva de caixa de US$ 4 bilhões
A Strategy acelerou as vendas de Bitcoin e já se desfez de 5.258 BTC em 2026, o maior volume anual desde que adotou a estratégia de tesouraria em 2020. A empresa vem redirecionando capital para sustentar a estrutura de financiamento via ações preferenciais STRC.
Em documento enviado à Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA em 3 de agosto, a companhia informou que, entre 27 de julho e 2 de agosto, vendeu 1.638 bitcoins, levantando US$ 104,7 milhões, e emitiu cerca de 3,01 milhões de ações ordinárias MSTR, captando US$ 290,6 milhões. O total próximo de US$ 395 milhões não foi destinado a novas compras de Bitcoin. Os recursos foram usados para pagar dividendos de preferenciais, recomprar STRC e avançar no objetivo de elevar a reserva de caixa em dólares para US$ 4 bilhões.
A realocação de recursos também estendeu para seis semanas a pausa nas compras de Bitcoin, a mais longa desde 2024.
STRC em desconto pressiona o canal de financiamento
A STRC, preferencial de taxa flutuante, segue negociada abaixo do valor de face de US$ 100, o que reduz a eficiência do instrumento. Quando o papel está próximo do "par", a Strategy consegue emitir novas ações perto desse preço e alocar os recursos com flexibilidade no balanço, inclusive para comprar Bitcoin. Com o desconto persistente, novas emissões exigiriam preço mais baixo ou dividendos ainda maiores para atrair investidores.
Desde maio, a STRC permanece abaixo do par. Para apoiar a cotação, a empresa elevou o dividendo anualizado para 12% e iniciou recompras no mercado secundário. Na semana passada, a Strategy destinou US$ 52,3 milhões obtidos com venda de Bitcoin e US$ 28,9 milhões da emissão de MSTR (US$ 81,2 milhões no total) para recomprar 912.143 ações de STRC. Na semana anterior, concluiu uma recompra de US$ 25 milhões, adquirindo 288.930 ações a um preço médio de US$ 86,53.
Na teleconferência de resultados do 2º trimestre, Phong Le, presidente e CEO da Strategy, afirmou que recomprar STRC abaixo do par permite liquidar futuras obrigações de dividendos com desconto, além de aumentar a demanda e ajudar a trazer o preço de volta para perto de US$ 100. Desde o início do programa, em julho, a companhia já aplicou cerca de US$ 106,2 milhões em recompras de STRC.
A Strategy ainda tem US$ 893,8 milhões disponíveis dentro da autorização de recompra de preferenciais, e a autorização integral de US$ 1 bilhão para recompra de ações ordinárias MSTR permanece sem uso. A meta é recolocar a STRC no par até setembro; o ritmo futuro dependerá do preço do papel e da liquidez de mercado. Segundo a empresa, atingir esse objetivo reativaria um canal de financiamento considerado relevante.
Até 26 de julho de 2026, a Strategy levantou ao todo US$ 7,53 bilhões por diferentes instrumentos, com as preferenciais ganhando peso crescente na composição do financiamento do balanço.
Reserva de US$ 4 bilhões para reforçar pagamentos
A companhia também vem usando a captação via ações ordinárias para ampliar rapidamente o caixa destinado ao pagamento de dividendos das preferenciais e de juros da dívida. Dos US$ 290,6 milhões levantados na oferta secundária de MSTR, US$ 250 milhões foram alocados à reserva em dólares, e US$ 11,7 milhões ficaram como capital de giro.
No fim de junho, essa reserva era de US$ 2,55 bilhões. Em 26 de julho, após uma oferta de ações ordinárias, o saldo subiu para US$ 3,75 bilhões. Com a rodada mais recente, a meta de US$ 4 bilhões foi oficialmente alcançada.
Ao atualizar seu arcabouço de capital em junho, a Strategy estimou que a despesa anual combinada de dividendos de preferenciais e juros da dívida seria de aproximadamente US$ 1,76 bilhão. Nesse patamar, a reserva de US$ 4 bilhões cobriria cerca de 27 meses de pagamentos. Sem nova aprovação do conselho, esses recursos podem ser usados apenas para dividendos das preferenciais e juros da dívida existente.
A reserva reduz um risco central: em condições de mercado adversas, a empresa não precisa vender ativos ou emitir novos papéis para cumprir obrigações de curto prazo. Mesmo com queda do Bitcoin ou piora do ambiente de financiamento, os preferencialistas passam a contar com um caixa dedicado. O custo, segundo a narrativa do mercado, recai sobre a diluição dos acionistas ordinários.
Na semana passada, a Strategy emitiu 3,01 milhões de novas ações MSTR sem comprar Bitcoin, enquanto sua tesouraria diminuiu em 1.638 BTC. Com isso, o número de bitcoins por ação diluída recuou. O crítico de longo prazo do Bitcoin Peter Schiff afirmou que a sequência de operações sugere maior dependência de vendas de BTC e de emissões de MSTR para priorizar preferenciais.
O efeito aparece no indicador de "bitcoins por ação": desde o início do ano, o avanço desacelerou para 3,5%, ante 13,3% no fim de maio. Neste trimestre, até agora, a métrica caiu 4,6%.
A Strategy define "BTC yield" como a variação percentual do Bitcoin por ação diluída; o aumento do estoque de BTC é convertido em uma estimativa de número de bitcoins. A empresa ressalta que essas métricas não equivalem a retorno ao acionista, receita ou fluxo de caixa e não indicam a capacidade de cumprir obrigações de dívida.
Bitcoin vira fonte recorrente de liquidez
Em 2026, a Strategy tem realizado vendas frequentes, sinalizando que o Bitcoin passou a funcionar como fonte operacional de liquidez para sua estrutura de financiamento. A empresa vendeu 32 BTC no fim de maio, 1.363 BTC em 29 e 30 de junho, 2.225 BTC nos cinco primeiros dias de julho e outros 1.638 BTC na semana passada.
O analista Will Clemente avaliou que a sequência evidencia como a Strategy tenta equilibrar os interesses de três grupos: detentores de Bitcoin, acionistas de MSTR e investidores em preferenciais. Para ele, as vendas mostram disposição da administração em realocar recursos no balanço para evitar que um único título pressione a estrutura de financiamento.
Essa flexibilidade foi formalizada no "BTC Liquidity Plan", que autoriza a venda de Bitcoin para elevar reservas em até US$ 1,25 bilhão. Os recursos podem ser usados para pagar dividendos de preferenciais, servir juros da dívida ou recomprar ações preferenciais ou ordinárias. Vendas que excedam esses objetivos ou o limite indicado exigem aprovação adicional do conselho.
Michael Saylor, chairman executivo, rebateu críticas de que o plano contraria o compromisso de "manter Bitcoin permanentemente". Segundo ele: "A Strategy anunciou o plano de monetização de BTC 31 dias antes da divulgação dos resultados do 2º trimestre, em 29 de junho — não depois de incorrer em perdas. Nunca adotamos uma política de 'nunca vender'. O plano não obriga a venda de nenhum Bitcoin e, no longo prazo, ainda esperamos continuar comprando Bitcoin em termos líquidos."
A Strategy segue como a empresa listada com a maior posição em Bitcoin: 842.138 BTC, cerca de 4% do limite de oferta total de 21 milhões. O custo total de aquisição é de US$ 63,51 bilhões, com preço médio de US$ 75.419. No momento da publicação, o Bitcoin era negociado em torno de US$ 62.633, o que coloca o valor de mercado da tesouraria em cerca de US$ 52,7 bilhões e implica perda não realizada aproximada de US$ 10,8 bilhões frente ao custo.
A perda não realizada aumenta o custo de uma eventual realização. Se a empresa continuar vendendo abaixo do preço médio, as perdas serão materializadas e a reserva de BTC que sustenta a estrutura de ações ordinárias e preferenciais, além das obrigações de dividendos, tende a encolher. Nesse contexto, a expectativa de Saylor de retomar compras líquidas de Bitcoin no longo prazo depende cada vez mais de recolocar a STRC no valor de face, permitindo voltar a financiar o balanço sem diluir continuamente os acionistas de MSTR ou consumir a reserva de Bitcoin.